As flores chegaram hoje
espera, tens de saber gostar delas passados nove dias.
As flores chegaram hoje, sorri e ama quem as trouxe,
nove dias, nove meses, nove anos, nove vidas, menos oito
menos tu, menos quem as trouxe
as flores chegaram hoje.
Wednesday, April 23, 2008
Monday, March 31, 2008
Rural magro, o pássaro
Dinis a sala é grande, sujeita-te, abre os olhos e limpa o espaço, não imaginas as coisas que nos passam pela cabeça, mulheres nós sabemos como as telhas de um telhado, o sol quando quer descobre-as, envia um raio de luz e assenta na mesa um queijo puído de bonito, um copo de vinho tinto e ainda se puder ser, os lábios mais amargos desse fim de tarde no mundo rural magro.
Tens de comer Dinis, tens de te alimentar, uma mulher virá um dia, quem sabe mais logo pela mortinha de hoje, quem sabe.
Debaixo do feno está um pássaro, garanto-te que está, é pequeno e de cor também pequenina, discreto como o amor de um tímido, masturbando-se junto do tanque na oficina de sapatos, raio de sítio rapaz, um gajo nunca saber o sexo dos atacadores, que raio se sitio rapaz.
Na serra dorme-se bem, dentro de um carro, vidros abertos e o alecrim a virar-se para nós, Júlia nunca mo tinham beijado assim, garanto-te que não, um caralhão destes há muito não vira, pobre do pássaro sai daí, que violência usar vidros num país sem janelas, feno e velas num desejo a Verão adolescendo, tinhas quinze anos Júlia, meias rijas e cuecas lá dentro, nunca lhes perdi o cheiro, o suor que na palha canta um pequeno galho, eu Júlia e o meu caralho feliz dentro do palheiro.
São os anos a carregar sobre o sangue de ontem, a tentar um lugar na terra, uma pedra, uma raiz nunca a descoberto por ser de água, o nosso nome nunca perguntado para que serve, soar um túnel, o nome é mesmo um túnel, e só isso, sem gente nesse lugar de céu aberto como um coração infinitamente azul, onde um pássaro cresceu para ser noite.
Tens de comer Dinis, tens de te alimentar, uma mulher virá um dia, quem sabe mais logo pela mortinha de hoje, quem sabe.
Debaixo do feno está um pássaro, garanto-te que está, é pequeno e de cor também pequenina, discreto como o amor de um tímido, masturbando-se junto do tanque na oficina de sapatos, raio de sítio rapaz, um gajo nunca saber o sexo dos atacadores, que raio se sitio rapaz.
Na serra dorme-se bem, dentro de um carro, vidros abertos e o alecrim a virar-se para nós, Júlia nunca mo tinham beijado assim, garanto-te que não, um caralhão destes há muito não vira, pobre do pássaro sai daí, que violência usar vidros num país sem janelas, feno e velas num desejo a Verão adolescendo, tinhas quinze anos Júlia, meias rijas e cuecas lá dentro, nunca lhes perdi o cheiro, o suor que na palha canta um pequeno galho, eu Júlia e o meu caralho feliz dentro do palheiro.
São os anos a carregar sobre o sangue de ontem, a tentar um lugar na terra, uma pedra, uma raiz nunca a descoberto por ser de água, o nosso nome nunca perguntado para que serve, soar um túnel, o nome é mesmo um túnel, e só isso, sem gente nesse lugar de céu aberto como um coração infinitamente azul, onde um pássaro cresceu para ser noite.
Tuesday, March 11, 2008
Deixa-me ser exagerado, aproveitar hoje que estou ansioso por acreditar em tudo.
Nós somos bonitos, nós que respiramos, subimos e descemos pelas pernas, somos bonitos, olha que rua tão maravilhosa a crescer, os nomes ajoelhados lá em cima a quererem-nos dentro, e nós pessoas a aceitar, o coração a bater à sombra, a esmurra-la mesmo, feliz cavalgada, transeuntes não, pessoas, a querer saber sem querer, a ser assim porque sim, sem histórias de tarde e cedo de sede, será que isto não vai passar, as crianças rápidas e um anúncio de saber por onde havemos de ir, é por ali, só pode ser por ali, os velhos estão contentes, as suas margens coloridas, os olhos tranquilos lá atrás, isto existe tudo.
Nós somos bonitos, nós que respiramos, subimos e descemos pelas pernas, somos bonitos, olha que rua tão maravilhosa a crescer, os nomes ajoelhados lá em cima a quererem-nos dentro, e nós pessoas a aceitar, o coração a bater à sombra, a esmurra-la mesmo, feliz cavalgada, transeuntes não, pessoas, a querer saber sem querer, a ser assim porque sim, sem histórias de tarde e cedo de sede, será que isto não vai passar, as crianças rápidas e um anúncio de saber por onde havemos de ir, é por ali, só pode ser por ali, os velhos estão contentes, as suas margens coloridas, os olhos tranquilos lá atrás, isto existe tudo.
Wednesday, February 27, 2008
A mãe.
Um dia morrerá a mãe, a quem não beijo a boca, nua no banho a depilar-se com creme em véspera cirúrgica, a mãe a quem chupei as mamas, os dias e as noites, um dia morrerá.
Conheço-te o cheiro e abraço-te tão poucas vezes, não lembro a última, deve ter sido há muito tempo, é triste dizê-lo, quando morreres abraçar-te-ei a carne fria, beijarei os teus lábios gelados, e uma lágrima minha correrá sobre o teu rosto, quente ao dizer-te tudo, uma lágrima minha juntar-se-á a essa neve onde tudo acaba e só o coração lá continuará a chegar, uma lágrima minha e pouco mais será preciso.
O que pensará a mãe do filho, porque não me abraça, não me beija, quando eu sei que me gosta muito, o que pensará a mãe, a mãe de quem eu gosto e debaixo saio desse amor, ainda há pouco uma sombra de tetas, agora luz vinda dos seus dentes para o meu pescoço, agora, vai, com o absurdo de me amares faz dele uma flor, todos os dias teus,
lembra-te de mim é o que quer dizer esta ausência de tocar-te, é a nossa união mãe,
o nosso silêncio a demorar-se nas mãos e nos lábios, o amor que grita lá de longe como um músculo a rasgar-se. Mãe, escureceu de repente, queria ter-te abraçado, ou talvez não, sabia eu desse abraço, sabia eu que era este.
Quando se trata de perder o que se ama é sempre cedo.
Não quero máquina de café, água só de jarro, pode ser necessário lavar a cabeça de alguém,
choro e festas de mão na cara dos filhos nem pensar, destapá-la, fodo a tromba de quem tentar, eu, meu irmão, meu pai, só.
Conheço-te o cheiro e abraço-te tão poucas vezes, não lembro a última, deve ter sido há muito tempo, é triste dizê-lo, quando morreres abraçar-te-ei a carne fria, beijarei os teus lábios gelados, e uma lágrima minha correrá sobre o teu rosto, quente ao dizer-te tudo, uma lágrima minha juntar-se-á a essa neve onde tudo acaba e só o coração lá continuará a chegar, uma lágrima minha e pouco mais será preciso.
O que pensará a mãe do filho, porque não me abraça, não me beija, quando eu sei que me gosta muito, o que pensará a mãe, a mãe de quem eu gosto e debaixo saio desse amor, ainda há pouco uma sombra de tetas, agora luz vinda dos seus dentes para o meu pescoço, agora, vai, com o absurdo de me amares faz dele uma flor, todos os dias teus,
lembra-te de mim é o que quer dizer esta ausência de tocar-te, é a nossa união mãe,
o nosso silêncio a demorar-se nas mãos e nos lábios, o amor que grita lá de longe como um músculo a rasgar-se. Mãe, escureceu de repente, queria ter-te abraçado, ou talvez não, sabia eu desse abraço, sabia eu que era este.
Quando se trata de perder o que se ama é sempre cedo.
Não quero máquina de café, água só de jarro, pode ser necessário lavar a cabeça de alguém,
choro e festas de mão na cara dos filhos nem pensar, destapá-la, fodo a tromba de quem tentar, eu, meu irmão, meu pai, só.
Monday, February 18, 2008
Pescoço
Para onde corres tu que és outro quando corres, cegueira meu querido, pela renda da casa, a casa toda, a grande casa, maior que a cegueira sempre, esfolado de mim e percebendo cada vez mais que só assim, adoeci para a subsistência, não para o conforto, adoeci para inclinar o pescoço na fotografia diária, já corro e fotografo, estou louco, ou pelo menos mais perto de estar, levanto os braços, só não bato no peito porque não gosto de macacadas e depois fico triste de repente, perco elasticidade e mirro, vou para dentro e adormeço, porém, há noites muito acordadas e longas, onde a tristeza se espraia, suja margens e pensa por nós como óleo na água, noites longas, tão longas, quanto o medo do pescoço não esticar amanhã.
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